Saga ao porto do simples...
- Carlos Wagner Coutinho Campos
- 6 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Digo, de mim a mim mesmo:
- doce agora você ser eu
sereno, simples, por simplesmente saber!
Mas dói percorrer a saga...dura enquanto durante...
Mergulho
e, novamente, ter a ver contigo, mim mesmo
mesmo que seja preciso ter que conter o "contigo" contido
tido e ouvido, visto, e sem ti, indo
havido e ávido, todo tido e tendo sido, e sendo em ser.
Possuído, escravo de entranhas
tecido entretecido em alma
em malhas de vias percorridas pela memória
tempos esquecidos
havidos há séculos e células de eras
e, contigo, mim mesmo
cercado em grades de tempos urdidos a malícias ou bem-dícias
e, por milícias inteiras de ondas de seres em mim acoplados
de um eu mim mesmo surreal e verídico, composto, sim
em dores ou prazeres
porém, entre equívocos
continuado, estressado, arrumado, guardado em dados contados
cortados por mil e uma coisas
por cento e tantas mil noites
por noitadas acordadas
mal dormidas, pernoites inteiros
perdidos dias, perfídias vidas
noites longas, ilógicas, brandas ou sórdidas
em todas as direções
norte sul, leste ou pestes, curas ou surras
e na pele, fracas marcas no hoje fortes no fundo
guardadas em pepitas embebidas
em toda a sorte de misturas
causadas por óticas caóticas, em risadas entre dentes, estridentes mordendo a rasgadas, a carne de peles trocadas, mudadas, sempre...
Enterradas as esperanças de noites de histórias
as mais estranhas
baforadas em meus ouvidos dormidos
dormentes mentiras, em tiras de panos e papéis bizarros de peças
no palco múltiplo, teatradas plenamente cinegravadas
na tela das retidas retinas "congélidas", em imagens mutantes.
Bisonhas e matreiras
bizárricas sandices, farrices do meu sub-eu-conhecido-de mim mesmo
junto com todas as desconhecidas figuras de um painel oscilante
diante de meus segredos mais profundos, inconfessos!
E ouço: - pro fundo! - pro fundo!
Dizem os muitos gritos de muitas vezes vozes.
Eu demoro, mas, a obedecer
desço em mim, cada vez mais
e mergulho raspado, cortado cortante, apertado
tantos marcantes riscos na pele em dor.
Mergulho no orgulho, na vaidade, nas capacidades e vícios
idades remotas do meu passado desconhecido e
finalmente sozinho, em mim
e na multidão de personas
e máscaras
de todas as cores e formas
vislumbro, apesar, um "eu" simples, medroso, apavorado, enrustido enrolado em rotas vestes
um "eu" simples, sem composições e mesclas
só, único, pronto para abandonar tudo que é ali lixo ad-querido...
Pronto! já posso ser fiel ao único e simples ser-se a si mesmo
ser-me em mim mesmo
livre das amarras dos lixos de identidades, milhões delas
elásticas, adquiridas pelo malquisto medo, medo, medo...
três vezes medo, medonho, de se ser um nada, correndo ao pavor
arremedo de vida, fingida, sempre atrás de quimeras
meras máscaras de personas seguras, mesmo que falsas.
Descortina-se o quadro
sou o que descubro
eu, só, no simples ser desnudo da carne dessas pessoas
que pude ter sido, estranhas aos meus apavorados olhos.
Por detrás, encarno a certeza da liberdade prometida por um estranho amigo
num distante passado
tempos, tempos...percorridos em dores e alegrias inconfiáveis.
Vejo, vi, a benfazeja solidão perdendo sua cara tenebrosa e temerária.
No simples, perco o medo.
Já posso emergir desse bizarro aprofundamento em mim mesmo.
Alegria insólita de uma sólida solidão, solícita, amiga, solidária (in)segurança.
O que faço?
Só risos, mesmo que invisíveis
pra todos ao redor.
Rio de todos, pois vi a cara da nua verdade de mim
e mesmo assim, quero dividir com quem quiser, as migalhas disso.

O simples se enraíza!






Ainda não inventaram uma palavra para definir a sensação que explode das palavras e contagia o mundo quando a gente lê uma poesia vulcânica como a Saga ao Porto do Simples, a começar pela exuberância do título, cuja luz é fogo que derrete a rocha da frieza interior e, ao mesmo tempo, traz fertilidade ao pensamento que reflui. É isso aí.