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Repente agreste, sementes e romãs

  • 19 de mai.
  • 2 min de leitura


De repente, desafio, fio a fio

rimas discordes, lançadas à sorte

romãs, Romas, Jeruzas além, muito além

Aquém do Rio, cidades tristes


Algures, alhures águas

aquém do Eufrates, ou além do Estige

banhando ou afogando no Jordão

pelas mãos do profeta


Rime ou não, o canto é preciso

ritmado, ritos, remando forte

sulcando revoltas águas do encéfalo cinza

rumo, sem prumo pranto certo.


Raros planos a palmos pertos

raspando rápido as paredes do labirinto

rentes movimentos, cortando curvas, esbarrando

retos circuitos, frenéticos balanços

ramos e ramas ao longo da árvore infrutífera

rarefeita em folhas, sementes espalhadas em relvas

ralas matas se mostrando desprotegidas

nada se esconde.


Romãs raros, Roma e Jeruzalem, aquém do amor

aquém de um rio, cidades tristes

Sião de dor e mortandade

incompreensão absurda, surda, urge rimar

canto rap, faca afiada, fiada e afinada

pois correm pra lá, Sião, homens demônios

santos de pau oco, loucos e roucos, gritando deus

homicidas de um Deus sem paz e rude.


Geme a rima, treme e previne a espada fina

segue a sina, ou não rime

apenas mire o canto preciso


Boiam nas águas sujas ritos, ratos e retas tortas

recorto, e vou rasgando folhas

recortes de poemas ao norte da sorte

a morte à espreita, sulcos ácidos, gástricos inflamam o plexo

a dor nas vísceras e na alma, é forte

vícios incontidos, gula, poder e ruína, vida curta

a ansiedade faz seu repente de música quase surda

faz seu número no palco do corpo indefeso


Rumo, sem prumo muro certo

raros planos a palmos pertos

raspando rente e rápido, cortando a pele

lentos movimentos, cortando curvas

retos circuitos em frenéticos balanços


Ramas ao longo, sementes ávidas

espalhadas em relva rarefeita, clareiras, pedras

ralas matas, terra seca, desprotegidas

nada se esconde ou responde, como na parábola.


E é certo

na dor aguda da vida efêmera

irmãos partem, apartam-se de nós

deixando no cérebro sulcos de memórias, imagens

falas caladas, silenciadas, soantes e vívidas

certeiras setas sobre a vida e seus mistérios.


Fecha-se a cortina.

Terminado o quadro, pincel em punho

fica-se manchado com as tintas de cores de nós mesmos:

nossos mundos, microcosmos em luta e conflito.

 
 
 

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Carlos Wagner, escritor, professor

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