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  • Foto do escritor: Carlos Wagner Coutinho Campos
    Carlos Wagner Coutinho Campos
  • 12 de out. de 2013
  • 2 min de leitura

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Nuno Ramos Arquivo “Última Hora”

ACHO QUE NUNCA TORCI TANTO POR UM JOGADOR COMO TORCI POR REINALDO; TUDO EM SEU FUTEBOL ERA LINHA E CLARIDADE

Foi a primeira vez que reparei nele. Hoje lembro pouco, mas acho que foi contra a Iugoslávia, talvez em 1977, num amistoso da seleção em que (isso eu tenho certeza) ele estreava. Um clássico: a matada no peito, o chapéu no zagueiro e o chute no ângulo, sem que a bola picasse. Nada indicava esforço, tensão muscular ou grandes gestos, apenas uma grandeza serena e quase anônima de um semi-adolescente que ninguém conhecia ainda. Foi a primeira vez que confirmei aquilo que um rumor, vindo lá do campeonato mineiro, anunciava há algum tempo: um fora-de-série aparecia. Foi, também, uma das únicas vezes em que o vi jogar sem que estivesse machucado, sem precisar consultar aquele estranho gabarito que sempre o acompanhou: imagine o que faria com quatro meniscos. Acho que nunca torci tanto por um jogador como torci por Reinaldo. Tudo em seu futebol era linha e claridade. Os dribles eram desconcertantes, mas nunca naquele sentido esfuziante, Denílson do termo. Eram de algum modo compostos, quase sóbrios, estranhamente lentos e sempre em direção ao gol. Batia com as duas, mas seus chutes pareciam mais colocados do que fortes, como se resultassem de um cálculo preciso. O importante é que nada fosse desperdiçado. Havia uma espécie de nitidez intelectual no que fazia, extremamente rara num centroavante (apropriada, talvez, a um camisa 10), e que outro mineiro, o centroavante-armador Tostão, provavelmente inaugurara nessa posição. Mas, acima de tudo, quem torcia por Reinaldo torcia pela fluência, pela facilidade, pelo modo desobstruído de vencer os zagueiros. A essa força construtiva -como um eleito a quem não pesassem os buracos da grama, a velocidade da bola, o calor do sol, as botinadas dos zagueiros-, a essa coesão clássica que seu primeiro gol na seleção definiu e batizou, opunha-se uma outra força, vinda das profundezas mais remotas, que está para o futebol um pouco como a morte está para a vida: aquela que vem das contusões. Não lembro de outro jogador que tenha sido acompanhado tão constante e profundamente, e desde o início da carreira, por esse demônio lento infiltrado no joelho, na panturrilha, nas cartilagens das juntas. É através das contusões que o corpo do jogador, desobrigado de suas habilidades, retorna à generalidade de ser um corpo, um corpo qualquer e então manca e sente pontadas e não pode nem sequer apoiar o pé no chão. Reinaldo, provavelmente o mais sofisticado jogador de sua época (ainda mais do que Zico), teve sempre perto de si esse fantasma, que lhe roubava a especialização e a mágica. Por isso, torcer por ele, de alguma forma, era reparar uma injustiça, era torcer contra aquilo que não tem nome -doença, praga, morte. Nuno Ramos é artista plástico e escritor, autor de “Cujo” e “O Pão do Corvo” (ambos pela editora 34).

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Comentários


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Carlos Wagner, escritor, professor

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